Panorama Geral

O Brasil vive um momento de inflexão crítica no biênio 2025-2026. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma combinação tóxica entre baixa popularidade, aperto fiscal e um Congresso Nacional fragmentado e assertivo. A dinâmica do presidencialismo de coalizão nunca esteve tão tensionada, com o Planalto dependendo de emendas parlamentares recordes para compor base de apoio.
A economia dá sinais claros de desaceleração após um crescimento surpreendente em 2024. As projeções indicam um “pibinho” entre 1,8% e 2,2% para 2025, enquanto a inflação roda acima do teto da meta e a Selic se mantém em 14,25% ao ano. Nesse cenário, o governo luta para equilibrar as contas públicas e manter a governabilidade.
Cenário Político
A aprovação do governo Lula 3 oscila entre 35% e 38%, com reprovação entre 30% e 34% — empate técnico que revela erosão do capital político. A substituição de ministros em janeiro de 2025 foi vista como uma “dança das cadeiras” que não resolveu a falta de coordenação, apenas redistribuiu cargos para partidos do centrão, como PP, Republicanos e União Brasil.
A sobrevivência do Planalto depende de um acordo tácito de distribuição de R$ 50 bilhões em emendas parlamentares para 2025, valor recorde que compromete o espaço fiscal. Essa dependência torna o Executivo refém de pautas-bomba e de um calendário legislativo imprevisível. Enquanto Lula mantém protagonismo internacional no G20 e na agenda climática, a percepção interna é de um foco excessivo em viagens e pautas simbólicas, em detrimento de soluções concretas para a inflação dos alimentos e a segurança pública.
Economia
O PIB brasileiro cresceu 3,4% em 2024, surpreendendo o mercado, mas as projeções para 2025 apontam forte desaceleração. A Selic em 14,25% ao ano, mantida pelo Banco Central sob comando de Gabriel Galípolo, trava o consumo e o investimento produtivo. A inflação acumulada em 12 meses superou o teto da meta de 4,5%, pressionando o poder de compra das famílias.
A dívida pública bruta atingiu 78% do PIB, e o arcabouço fiscal de 2024 mostrou-se frouxo demais. O governo luta para fechar as contas, mas o déficit primário deve ficar entre 0,5% e 1% do PIB em 2025. A combinação de juros altos, inflação resistente e crescimento fraco cria um cenário de estagflação branda que desafia a política econômica.
Análise
O dilema central de Lula é conciliar a governabilidade imediata com a sustentabilidade fiscal de longo prazo. A aliança com o centrão garante os votos necessários no Congresso, mas exige um custo crescente em emendas e cargos. Esse modelo esgota o espaço fiscal e alimenta a insatisfação popular, que cobra resultados em áreas sensíveis como saúde, educação e segurança.
O isolamento político da ala progressista do governo acentua a crise de comunicação. A base aliada está fragmentada em pelo menos 20 partidos com agendas concorrentes, e o Planalto não consegue impor uma pauta unificadora. A estratégia de apostar no desempenho econômico como fator de popularidade pode naufragar com a desaceleração prevista para 2025.
Perspectivas
O segundo semestre de 2025 será decisivo para o governo Lula. Sem espaço fiscal para novos estímulos, o Planalto terá de negociar cada votação com um Congresso cada vez mais empoderado. A aprovação do orçamento impositivo e as emendas de relator serão termômetros da capacidade de articulação do Executivo.
A popularidade pode continuar em queda se a inflação dos alimentos não ceder e o mercado de trabalho mostrar sinais de esfriamento. Do lado positivo, a recuperação gradual da economia global e o superávit comercial podem aliviar as contas externas. Mas o dilema político segue o mesmo: governar com poucos recursos e muitos interesses conflitantes exige uma engenharia institucional que o Brasil ainda não demonstrou ter.
