Panorama Geral

A gestão da crise fiscal tornou-se o principal fator de desgaste para o governo e de paralisia para o Legislativo. Os indicadores de 2024 apontam para um déficit primário de 0,5% do PIB, em desacordo com a meta de déficit zero, o que obrigou o Executivo a revisar projeções e pavimentar o caminho para um ajuste que divide a base aliada. O contingenciamento de R$ 15 bilhões anunciado em março abalou a credibilidade do arcabouço fiscal e acirrou as tensões entre os poderes.
A popularidade presidencial caiu 4 pontos percentuais no último trimestre, contaminada pela percepção de descontrole nas contas públicas e pela promessa não cumprida de evitar cortes em programas sociais. O Planalto adota uma postura de pragmatismo defensivo, concentrando seus esforços em evitar pautas-bomba no Congresso e em defender o arcabouço fiscal, mesmo diante de um cenário de baixa confiança do mercado e da sociedade.
Cenario Politico
O Legislativo tornou-se o principal centro de poder na agenda fiscal, com comissões avançando em projetos que ampliam gastos, como o reajuste de salários do judiciário, com impacto estimado de R$ 4 bilhões por ano. Enquanto o governo tenta aprovar o Projeto de Lei que limita os supersalários, a base de sustentação no Congresso encolheu, e o Centrão ameaça votar a favor de pautas de aumento de gastos caso não haja liberação de emendas parlamentares.
O Executivo enfrenta o dilema de conter gastos sem perder o apoio dos partidos de centro, uma equação que se torna cada vez mais complexa. O risco real de fatiamento do orçamento e perda de controle executivo sobre as finanças públicas coloca o governo em uma encruzilhada política, onde cada decisão pode gerar desgaste ou paralisia legislativa.
Economia
O cenário macroeconômico é de crescimento moderado, com previsão de 2,1% para 2025, e inflação sob pressão. O IPCA acumulado nos últimos 12 meses está em 4,7%, acima do centro da meta de 3%, o que trava a política monetária e mantém o Copom cauteloso, com a Selic em 10,75% ao ano. A desancoragem das expectativas de inflação dificulta qualquer sinalização de flexibilização por parte do Banco Central.
O câmbio segue volátil, com o real depreciado 8% no ano, impactado pela incerteza fiscal interna e pelo juro alto nos Estados Unidos. Esse movimento cambial pressiona ainda mais os preços e complica o planejamento do governo, que vê o espaço para estímulos econômicos se reduzir enquanto a dívida pública segue em trajetória ascendente.
Analise
A encruzilhada fiscal brasileira reflete um descompasso estrutural entre as promessas de campanha, as exigências do mercado e a realidade orçamentária. O governo tenta equilibrar a necessidade de ajuste com a manutenção de programas sociais, mas o contingenciamento de despesas e a falta de reformas estruturais aprofundaram a desconfiança dos agentes econômicos. A popularidade em queda e o Legislativo assertivo indicam que o centro de gravidade política se deslocou para o Congresso, onde as negociações por emendas e cargos pautam o ritmo do ajuste.
A ausência de uma agenda de reformas consistente, com a reforma administrativa arquivada e a regulamentação da reforma tributária travada no Senado, reduz as alternativas do Executivo. Restam as mini-reformas setoriais, como a do seguro rural, que tramita em regime de urgência, mas que são insuficientes para gerar o impacto fiscal necessário. O risco é que o país entre em um ciclo de baixo crescimento, inflação persistente e instabilidade política, com o ajuste sendo feito às pressas e de forma reativa.
Perspectivas
No curto prazo, o governo deve continuar a enfrentar forte pressão do Congresso para liberar emendas e aceitar pautas de aumento de gastos, o que pode levar a um novo contingenciamento ou a um estouro da meta fiscal. A votação do Orçamento de 2025 será um teste crucial para a governabilidade, e o Planalto precisará de uma articulação fina para evitar que o Centrão imponha uma derrota significativa.
Sem avanços nas reformas estruturais, a tendência é de manutenção do cenário de paralisia e crescimento moderado, com inflação acima da meta e juros elevados. As perspectivas dependem da capacidade do Executivo de recompor sua base de apoio e de apresentar um plano fiscal crível que concilie ajuste e desenvolvimento, tarefa que se mostra cada vez mais desafiadora em meio ao desgaste político e à desconfiança generalizada.
